Vivemos hoje, no mundo, o fim da hegemonia do dólar

Vivemos hoje, no mundo, o fim da hegemonia do dólar

Uma das muitas consequências da guerra na Ucrânia tem sido o enfraquecimento do dólar como moeda de reserva e de comércio internacional, bem como o surgimento de novas, como o Yuan (chinês), Rublo (russo) e Rúpia (indiana). Este novo ensaio discute esse tema, que guarda uma relação direta com uma nova ordem mundial multipolar.

Tenho lido muitos textos que falam sobre uma possível nova arquitetura financeira internacional. Não estou dizendo que isso já está acontecendo. Mas, pretendo apresentar neste novo ensaio, com base em um autor indiano, Prabir Purkayastha, bem como Prabhat Patnaik e o estadunidense, nosso antigo conhecido, Michael Hudson. Até Zoltan Paz, do banco Crédit Suisse, são referenciados (1).

O conjunto de informações que eu preparei tem como base estes estudiosos intelectuais, que começam levantando uma interrogação: esta guerra na Ucrânia pode reconfigurar uma nova ordem econômica? Quais seriam as suas consequências? Ela poderá criar uma nova ordem mundial e até mesmo um novo sistema financeiro internacional, como menciona Alastair Crooke (2).

Tenho dito desde 24 de fevereiro, quando iniciaram as operações militares especiais da Rússia na Ucrânia, que o que se trava naquele conflito é a consolidação – ou não – desta nova ordem mundial que nós estamos chamando de “ordem multipolar”, a ordem onde existem no mundo muitos polos, pelo menos três.

Hoje, o mundo tem seis polos, três bem consolidados – que são EUA, Rússia e China – e três estão ainda em uma situação pendular ou, são subordinados aos Estados Unidos, ou eles tomam uma certa independência e colam, trabalham junto com os dois polos opositores aos Estados Unidos, que são a Rússia e China. Esse polos são: Brasil, Índia e União Europeia.

Quais são esses dois polos vacilantes? O Brasil e a Índia, dois países governados por autoridades de extrema-direita. No entanto, tanto o Brasil, desde a visita de Estado que o inominável fez à Rússia, quanto a Índia, que é a maior compradora de armas do mundo, compra de muita gente, mas no caso russo, que é seu vizinho, eles compram bilhões e bilhões de dólares em armamentos. Isso fez com que a Índia se abstivesse no Conselho de Segurança nas votações mais sensíveis sobre a Rússia. Da mesma forma que a China se absteve e o Brasil vacilou na primeira votação, no dia 2 de março.

Mas, em alguns momentos, de lá para cá, depois desse vacilo ele tem se colocado dentro de uma linha de neutralidade, justa, uma posição boa. Não vou entrar no mérito. Se a Rússia perder este conflito, esta batalha, essas operações militares especiais ou esta guerra, chamem do que quiserem, nós vamos viver um retrocesso de algumas décadas, não sei se de 30 anos, voltando a 1991. E teríamos que começar tudo de novo.

O presidente Lula está vindo, em janeiro. Eu continuo entusiasmadíssimo com sua eleição. Nenhuma pesquisa, nenhuma possível melhora da economia brasileira – que eu não vejo no horizonte – vai tirar até 3 de outubro, o favoritismo de Lula.

O mundo inteiro está aguardando a posse de Lula, pois ninguém aguenta mais esse inominável. Como disse Miriam Leitão, ele conspira contra a democracia, portanto, não pode ser comparado com o presidente Lula, como os candidatos da terceira via vão fazer, e o mundo inteiro sabe disso.

O portal Rússia Today diariamente noticia novas sanções contra a Rússia. Outro dia, dois grandes bancos russos foram sancionados, bem como as filhas do presidente Putin e até o primeiro-ministro também foram. Já ultrapassa seis mil o número de sanções impostas aos russos. Então, a Rússia é uma grande economia, ela não é um mercado exportador de commodities, como eu vou apresentar daqui a pouco. A Rússia participa de cadeias produtivas internacionais que são fundamentais.

A Rússia e vários outros países, que eu vou mencionar, todos eles, estão vendo as suas reservas depositadas nos Estados Unidos serem simplesmente confiscadas. A reserva russa, no valor de 300 bilhões de dólares, que significa 1,5 trilhão de reais, estava depositada no Federal Reserve, que é o Banco Central dos Estados Unidos.

Como é que o mundo inteiro e outros países reagirão em relação a isso? Porque, eles fazem propaganda do dólar como moeda de reserva. Os países acumulam dólares e guardam nos bancos internacionais que, de repente, eles vêm e tomam. São exatamente estas mensagens que esta guerra está passando para o mundo.

Outra questão que também vemos hoje, não é apenas a questão do risco da perda da hegemonia do dólar, que é o título do nosso ensaio. Há um outro aspecto que eu quero levantar, que nós já vivemos na pandemia, que são as chamadas interrupções das cadeias produtivas e mundiais, especialmente, produção e abastecimento.

Essas cadeias foram montadas sob duas concepções: a primeira é mais uma premissa do que concepção, a de que o mundo é globalizado. Pode-se produzir uma peça em Cingapura, outra na Malásia e monta-se o produto final na China, pois tudo é globalizado.

O segundo aspecto é que estas cadeias produtivas foram montadas dentro de regras absolutamente seguidas por todo mundo e fixadas pela Organização Mundial do Comércio. Tudo isso está sendo quebrado, estas cadeias estão sendo desmontadas.

E nós já vimos um pouco disso na pandemia e agora vamos ver de uma forma muito mais complicada, por causa das seis mil sanções contra a Rússia. Quando Putin, logo no começo falou: “as sanções machucarão os sancionadores” ele estava inteiramente cheio de razão. O rublo é a moeda que mais valoriza hoje no mundo. O dólar é a moeda que mais está se depreciando.

A valorização do rublo é uma coisa inédita. Teremos que estudar este fenômeno. Talvez a Rússia venha a ser o primeiro país do mundo que entra em uma guerra e quando sair dela, vai sair com a sua moeda mais valorizada do que quando entrou. Isto é por causa dessa jogada de pagamento em rublos, adotada pelo seu presidente Vladimir Putin.

Parece que o mundo está descobrindo agora que a Rússia não é um país simples exportador de commodities, especialmente gás e petróleo, como veremos em seguida. A Rússia é um dos maiores fornecedores de trigo e fertilizantes do mundo, para os Estados Unidos e para boa parte boa parte de países e também para o nosso Brasil. Às vezes, é o fertilizante já pronto, às vezes, são alguns elementos para fabricar o fertilizante. Acontece que o Brasil não tem fábricas que dão conta do mercado. A que era da Petrobras, o inominável privatizou.

Então, precisa-se de nitrogênio, de fósforo, que são elementos para produzir fertilizantes. Aí, o nosso autor indiano levanta a seguinte indagação: “como é possível ter ‘fé’ na moeda estadunidense, cujo governo confisca fundos russos e também de outros países?”

Já confiscou do Irã, já confiscou da Venezuela (foi o banco da Inglaterra) e confiscou até do pequenino Afeganistão. É esse tipo de atitude que vai colocando em questão o dólar como moeda de reserva internacional e de uso no comércio internacional. Países e governos vão procurando alternativas. Ninguém quer perder suas reservas.

Eles sempre falaram para comprar tudo em dólar. O superávit comercial deve ser transformado em dólar e vai acumulando na forma de reserva e pedem para os países deixarem depositados nos bancos deles, para, às vezes, render um, dois ou 3% ao ano. De repente, o país perde tudo isso, pois os EUA eles acham que esse dinheiro é deles.

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